Documentos internos revelados pela agência Reuters mostram que a Meta estimou faturar cerca de 16 bilhões de dólares em 2024 apenas com anúncios classificados como de risco, incluindo golpes financeiros e venda de produtos proibidos. Segundo a investigação, a empresa calculou que 10 por cento de toda a receita publicitária do ano viria desse tipo de propaganda. Os arquivos também indicam que cerca de 15 bilhões de anúncios perigosos são exibidos por dia nas plataformas do grupo. A Meta contestou os números, mas não apresentou novas estimativas.
No Brasil, o impacto desses golpes aparece de forma clara. Um levantamento do NetLab da UFRJ identificou 1.770 anúncios fraudulentos pagos e impulsionados pela Meta em apenas 11 dias de janeiro de 2025. Esses anúncios imitavam símbolos oficiais como Pix, Bolsa Família, Polícia Federal, Receita Federal e até o domínio gov.br. As vítimas eram conduzidas a pagar taxas inexistentes, quase sempre por Pix. A estratégia inclui uso de deepfakes de autoridades, sites falsos parecidos com os de órgãos públicos e redes de perfis comprados por cerca de 40 reais para driblar bloqueios.
Esse material serviu de base para uma ação civil pública da Advocacia-Geral da União. A AGU quer que a Meta revele quanto lucrou com anúncios fraudulentos no país e que todo o valor seja destinado ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos.
Para o advogado Leon Fagiani, especialista em tecnologia, o cenário jurídico mudou por pressão dos fatos. Ele lembra que em abril de 2025 a AGU já havia entrado com ação contra a empresa e que, em julho, o Supremo Tribunal Federal decidiu que plataformas podem ser responsabilizadas diretamente por conteúdos ilegais, derrubando a blindagem que existia no Marco Civil da Internet.
Segundo ele, o exemplo ajuda a entender a gravidade da situação: seria como permitir que uma loja dentro de um shopping simulasse uma unidade da Receita Federal para enganar consumidores. É isso que ocorre nas plataformas.
Os dados revelados mostram que a fraude não é um evento isolado, mas um campo que cresceu com a falta de transparência e com o pouco controle interno. Enquanto a Justiça discute medidas e responsabilidades, os golpes continuam a explorar o alcance das redes e a fragilidade dos sistemas de verificação.

