A cineasta Adelia Sampaio, que completa 81 anos no próximo mês, segue como uma das figuras mais importantes do cinema brasileiro. Em 1984, ela se tornou a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, com o filme Amor Maldito. A produção retrata o relacionamento entre duas mulheres em plena ditadura, enfrentando censura, machismo e falta de apoio financeiro.
Nascida em Belo Horizonte, Adelia passou parte da infância em um abrigo em Minas Gerais. Ela só voltou a viver com a família quando sua irmã, que trabalhava com filmes russos no Rio de Janeiro, convenceu a mãe a buscá-la. Foi essa irmã que a levou ao cinema pela primeira vez, em uma sessão que mudou sua vida.
Adelia começou a trabalhar em distribuidoras e laboratórios de filmes na Cinelândia, onde aprendeu o ofício na prática. Aos 22 anos, dirigiu seu primeiro curta, Denúncia Vazia, feito sem recursos e com ajuda de amigos e profissionais que acreditaram no projeto.
Sua trajetória é marcada por barreiras impostas pela falta de oportunidades para mulheres negras no audiovisual. Ela mesma resume: “Ser mulher, negra e cineasta no Brasil é ser bastarda três vezes”. Mesmo assim, construiu uma filmografia que trata de temas sociais e histórias reais pouco visibilizadas.
Amor Maldito foi produzido sem apoio da Embrafilme e distribuído após ser classificado como pornochanchada, única forma de garantir exibição nas salas da época. A decisão, segundo ela, foi uma estratégia para que o público tivesse acesso à obra.
A cineasta só descobriu que havia sido a primeira mulher negra a dirigir um longa no Brasil muitos anos depois, quando pesquisas acadêmicas revelaram seu pioneirismo. Em sua homenagem, foi criada a Mostra de Cinema Negro Adelia Sampaio, que chegou à sétima edição em 2025.
Adelia segue como referência para novas gerações de cineastas mulheres, negras e LGBTQIA+. Seus filmes são estudados e exibidos em mostras, escolas e festivais no Brasil e no exterior. Para ela, o cinema foi primeiro um impacto, e depois um destino. “Saí da sessão e disse: ‘Eu vou fazer isso’. E fiz.”

