O governo brasileiro, instituições científicas e o Ministério Público trabalham para recuperar fósseis de dinossauros e outros patrimônios naturais e culturais brasileiros que estão espalhados por pelo menos 14 países. O processo busca combater o chamado colonialismo científico, prática que prejudica a ciência nacional e os museus brasileiros.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, existem atualmente cerca de 20 negociações internacionais para devolução desses materiais. Os Estados Unidos lideram a lista de países com mais pedidos de repatriação, com oito ações abertas. Alemanha aparece em seguida, com quatro pedidos, além de Reino Unido, Itália, França, Suíça, Irlanda, Portugal, Uruguai e Japão.
Entre os casos recentes está o acordo firmado entre Brasil e Alemanha para devolução do dinossauro Irritator challengeri, espécie que viveu há cerca de 116 milhões de anos na região do Cariri, no Ceará. O fóssil estava desde 1991 em um museu alemão e havia sido retirado ilegalmente do país.
Outro exemplo foi o retorno ao Brasil, em 2023, do fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus, que hoje integra o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, no Ceará. O caso ganhou repercussão internacional após pressão de pesquisadores e da população brasileira nas redes sociais.
A paleontóloga Aline Ghilard afirmou que muitos museus estrangeiros ainda concentram materiais retirados de antigos territórios colonizados. “Esses países se sentem no direito de vir aos nossos territórios e coletar materiais”, afirmou.
No Brasil, fósseis são protegidos por legislação federal desde 1942 e pertencem à União. A exportação só pode ocorrer com autorização oficial e vínculo científico com instituições brasileiras.
Pesquisadores alertam que a saída ilegal dos fósseis prejudica o desenvolvimento científico nacional, já que muitos estudos acabam sendo realizados exclusivamente por pesquisadores estrangeiros. Estudos recentes apontam que quase metade das publicações sobre fósseis da Bacia do Araripe foi produzida sem participação de cientistas brasileiros.
Além da importância científica, a repatriação também fortalece o turismo e os museus nacionais. Segundo o diretor do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, Allysson Pinheiro, o retorno do Ubirajara aumentou significativamente o número de visitantes e investimentos na região.
A Bacia do Araripe foi reconhecida pela Unesco como geoparque mundial em 2006 e atualmente é candidata a Patrimônio da Humanidade.

