Mesmo formando mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, as mulheres seguem em menor número entre professores de graduação e pós-graduação no Brasil. Elas também recebem apenas um terço das bolsas de produtividade destinadas aos cientistas de maior destaque acadêmico.
Pesquisadoras apontam que a maternidade amplia ainda mais as dificuldades na carreira científica. O chamado “efeito tesoura”, que representa a redução gradual da presença feminina nos cargos mais altos da academia, ganhou novos debates nos últimos anos com foco nas mães cientistas.
A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernanda Staniscuaski, afirma que a maternidade provocou uma desaceleração prolongada em sua carreira. Segundo ela, a queda na produtividade reduz as chances de conseguir financiamentos, bolsas e novos projetos de pesquisa.
Em 2016, Fernanda fundou o movimento Parents in Science ao lado de outras mães e um pai pesquisadores. Hoje, o grupo reúne mais de 90 cientistas e busca ampliar o debate sobre parentalidade na ciência.
Um levantamento feito pelo movimento analisou cerca de mil docentes de pós-graduação e mostrou que 66,1% das mães pesquisadoras deixaram programas por perda de produtividade, enquanto entre os pais esse índice ficou em 37,5%.
O estudo também apontou mais dificuldade de retorno das mães à carreira acadêmica após o descredenciamento. Entre os pais, 25% não conseguiram retornar aos programas. Entre as mães, o percentual chegou a 38%.
Além das questões de gênero, pesquisadoras afirmam que mulheres pretas, pardas, indígenas e mães de filhos com deficiência enfrentam ainda mais barreiras.
A assistente social Cristiane Derne, mestranda da PUC-Rio, relatou dificuldades para conciliar maternidade, trabalho e graduação. Moradora de Magé, na Baixada Fluminense, ela fazia longos deslocamentos diários até a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Segundo Cristiane, muitas estudantes mães acabam desistindo dos cursos pela falta de apoio. A UFRJ oferece auxílio-educação de R$ 385 para mães estudantes, mas apenas até que os filhos completem seis anos.
Um levantamento do Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade mostrou que 63 das 69 universidades federais oferecem algum tipo de auxílio financeiro para mães estudantes. O valor médio é de cerca de R$ 370 mensais.
O estudo apontou ainda que apenas 13 universidades estendem benefícios para alunas de mestrado e doutorado. Somente oito instituições possuem cuidotecas, espaços destinados ao cuidado das crianças enquanto as mães estudam.
Em março deste ano, o Ministério da Educação lançou edital de R$ 20 milhões para implantação de novas cuidotecas em universidades federais.
A professora e doutoranda Liziê Calmon destacou que a experiência da maternidade contribui para novas perspectivas dentro da pesquisa científica. Ela integra o coletivo Filhas de Sabah, que ajudou a construir a lei do Marco Legal Mães na Ciência, aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A nova legislação prevê que o trabalho de cuidado seja considerado como pontuação em editais e processos seletivos acadêmicos.
Outra iniciativa foi criada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Em 2024, a fundação lançou o primeiro edital exclusivo para mães cientistas, em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira.
O programa apoiou 134 pesquisadoras. Segundo a Faperj, uma nova edição do edital deverá ser lançada em março de 2027.
A fundação também ampliou o período de avaliação curricular para mulheres que tiveram filhos nos últimos cinco anos. Nessas situações, os trabalhos publicados em até sete anos poderão ser considerados na análise.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou recentemente o programa Aurora, que prevê até 300 bolsas para pesquisadoras gestantes ou mães de pós-graduação.
A proposta é permitir que pesquisadoras contem com apoio de profissionais de pós-doutorado para manter projetos e orientações acadêmicas durante a licença-maternidade.
Nos últimos anos, também houve mudanças na legislação federal. Em 2024, foi sancionada a lei que amplia em seis meses o prazo de conclusão de cursos em casos de gestação de risco, parto, adoção ou guarda judicial.
Já em abril de 2025 entrou em vigor a lei que proíbe discriminação baseada na maternidade em processos de seleção e renovação de bolsas de pesquisa.

