Aos 10 anos, o garoto que montava baterias improvisadas com panelas e baldes dentro de casa em Rio Preto não imaginava que, anos depois, pisaria em alguns dos principais palcos dos Estados Unidos e se tornaria coordenador do departamento onde um dos seus maiores ídolos passaria a lecionar.
A trajetória do baterista e percussionista Marcelo Bucater começou no interior paulista, tocando na banda do Colégio São José e estudando música ainda criança. O interesse pelo instrumento nasceu depois que ouviu pela primeira vez a banda Angra e conheceu o trabalho do baterista Aquiles Priester, que se transformaria em uma de suas principais referências musicais.
Marcelo iniciou os estudos de bateria em Rio Preto e, aos 17 anos, mudou-se para São Paulo para cursar faculdade de música. Na capital, trabalhou em casamentos, acompanhou artistas sertanejos, participou de apresentações na Virada Cultural e integrou bandas de rock enquanto tentava construir carreira profissional.
A mudança decisiva ocorreu em 2013, quando participou de uma audição promovida pela antiga LAMA, instituição que mais tarde se transformaria no Los Angeles College of Music. Ele conquistou uma bolsa parcial de estudos e decidiu se mudar para Los Angeles após vender carro, instrumentos musicais e praticamente tudo o que possuía para custear a viagem.
Poucos meses depois de chegar aos Estados Unidos, o dinheiro acabou. Marcelo conta que chegou a comunicar ao presidente da faculdade que precisaria abandonar o curso por falta de condições financeiras. Ao analisar o desempenho acadêmico do brasileiro, a instituição ampliou a bolsa praticamente para integral.
Mesmo assim, as dificuldades continuaram. Em outro momento, quando cogitou deixar novamente a faculdade, um professor interferiu diretamente para garantir sua permanência. As notas máximas renderam uma bolsa integral até o fim da graduação.
Durante esse período, Marcelo passou a estudar com o baterista Jeff Hamilton, músico que admirava desde antes da mudança para os Estados Unidos. Sem recursos para pagar pelas aulas, ajudava montando e carregando equipamentos do artista em apresentações em troca dos estudos.
Mais tarde, quando enfrentava dificuldades relacionadas ao visto de permanência no país, recebeu indicação para uma audição com Joe LaBarbera, baterista conhecido internacionalmente por tocar com Bill Evans. Marcelo foi aprovado no mestrado em Jazz Performance da California Institute of the Arts e voltou a receber bolsa de estudos.
Foi durante o período do mestrado que começou a atuar como professor. Em 2018, retornou ao Los Angeles College of Music como integrante do corpo docente. Em 2023, após a morte de Ralph Humphrey, fundador do departamento de bateria da instituição, Marcelo recebeu o convite para assumir a coordenação do curso, tornando-se o mais jovem da história a ocupar o cargo.
Hoje, além de coordenar o departamento, o músico mantém carreira internacional como baterista de estúdio e turnês. Já trabalhou com artistas como Carrie Underwood, Arthur Verocai e Adrian Younge.
Marcelo também já se apresentou em locais como o Lincoln Center, o London Jazz Festival, o Rose Bowl e a MGM Grand Garden Arena. Em 2024, lançou o álbum “After the Storm” e o EP “First Flight”.
Uma das situações mais simbólicas da trajetória aconteceu recentemente durante uma turnê de workshops pelo Brasil ao lado justamente de Aquiles Priester. Hoje, o músico que inspirou Marcelo na infância também integra o corpo docente da faculdade coordenada pelo rio-pretense — contratado pelo próprio Marcelo.

