O uso de relatórios produzidos por inteligência artificial no processo penal tem gerado debate entre especialistas do Direito. O tema envolve a possibilidade de esses documentos serem utilizados como prova em decisões judiciais e levanta dúvidas sobre sua confiabilidade e validade.
O avanço das tecnologias de inteligência artificial generativa trouxe novos desafios para o sistema de Justiça. Esses sistemas funcionam com base em padrões estatísticos e não realizam, em regra, consultas em tempo real, o que pode gerar informações imprecisas ou até incorretas, conhecidas como “alucinação”.
No processo penal, a prova tem a função de ajudar o juiz a entender os fatos e tomar decisões com base em elementos confiáveis. A legislação permite a produção de provas, desde que sejam relevantes e adequadas. O Código de Processo Penal também prevê que provas irrelevantes ou sem fundamento podem ser rejeitadas.
Especialistas apontam que relatórios produzidos por inteligência artificial não possuem metodologia científica clara e verificável, o que dificulta sua utilização como prova técnica. Além disso, há falta de transparência sobre como esses sistemas chegam às conclusões, o que impede o controle e a conferência dos resultados.
O problema se torna mais grave quando esses relatórios são utilizados no lugar de perícias técnicas oficiais. Em alguns casos, análises feitas por inteligência artificial podem entrar em conflito com exames realizados por órgãos especializados, o que levanta questionamentos sobre qual informação deve prevalecer.
O Superior Tribunal de Justiça já analisou o tema recentemente. Em decisão da 5ª Turma, foi afastado o uso de um relatório produzido por inteligência artificial como prova em processo penal, por falta de base técnica e científica.
Apesar das críticas, há entendimento de que o uso da tecnologia não deve ser totalmente descartado. Alguns especialistas defendem que relatórios de inteligência artificial podem ser utilizados como apoio, desde que não substituam perícias técnicas e sejam analisados junto com outras provas do processo.
O debate também envolve princípios do processo penal, como o contraditório e a ampla defesa. A avaliação das provas deve permitir questionamento e verificação, garantindo decisões baseadas em critérios claros e racionais.
Para especialistas, o caminho é adotar cautela no uso dessas ferramentas. A tecnologia pode auxiliar o trabalho jurídico, mas precisa seguir regras que garantam segurança, transparência e respeito às normas do processo.
O tema deve continuar em discussão, à medida que o uso da inteligência artificial cresce no Judiciário e em outras áreas da sociedade.

