Mulheres negras de Santa Catarina denunciaram, pelas redes sociais, que foram alojadas em espaços semelhantes a baias de cavalo durante a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada na terça-feira (25), em Brasília. O grupo afirma que o local destinado ao pernoite ficava no Parque de Exposições da Granja do Torto, área que costuma abrigar feiras agropecuárias.
Nos vídeos divulgados, as participantes mostram estruturas de estábulos cobertas com lona, feltro e serragem no chão. O objetivo, segundo elas, seria disfarçar o ambiente usado normalmente para cavalos. “Isso aqui é uma baia. Isso aqui é uma cocheira!”, desabafou uma das mulheres. “A escravidão nunca acabou”, disse outra manifestante, comparando a situação às senzalas onde seus ancestrais foram mantidos durante séculos de escravidão no Brasil.
As mulheres afirmam que pessoas idosas, crianças e participantes com comorbidades precisaram dormir nessas condições, enfrentando cheiro forte, poeira e muitas moscas. “Estamos sendo tratadas como animais”, relatou outra participante.
Apesar de valores elevados terem sido destinados à organização da marcha — que reuniu cerca de 300 mil pessoas —, as denunciantes dizem ter sido recebidas com descaso e violência simbólica, justamente em um evento realizado em nome da luta contra o racismo, o machismo e a desigualdade.
A manifestante Ary Ramos, que divulgou parte das imagens, criticou a decisão de colocar mulheres negras em um espaço originalmente projetado para animais. “Saímos de nossas casas para construir essa marcha, e o que recebemos foi isso. A própria organização está fazendo essa regressão”, declarou.
Até o momento, nem o comitê organizador da marcha nem o Ministério da Igualdade Racial divulgaram nota oficial sobre o caso.
A Marcha das Mulheres Negras reuniu representantes de dezenas de estados e de outros países, com pautas centrais ligadas à reparação histórica, ao combate à violência e à defesa de políticas públicas. Porém, para um grupo significativo de participantes, o início da jornada ficou marcado por indignação e por um sentimento doloroso de repetição das violações sofridas por suas ancestrais.
“Isso aqui é a senzala do século 21”, afirmou uma das mulheres ao mostrar o local.

