A escritora Ana Maria Gonçalves tomou posse na noite de sexta-feira (7) na cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. Ela é a primeira mulher negra a fazer parte da instituição fundada em 1897 e a 13ª mulher entre os imortais.
Autora do romance histórico Um defeito de cor, Ana Maria abriu o discurso com uma saudação aos ancestrais e dedicou o momento à memória dos que vieram antes. Em suas palavras, agradeceu à ancestralidade e destacou a importância da cultura negra e feminina dentro da literatura brasileira.
Durante o discurso, a escritora lembrou os antigos ocupantes da cadeira 33, como o diplomata Domício da Gama e o linguista Evanildo Bechara, e ressaltou o papel de cada um na história da língua portuguesa.
Ana Maria também falou sobre a exclusão feminina no início da Academia, citando escritoras como Amélia Beviláqua, que teve sua candidatura vetada em 1930, e as pioneiras que vieram depois, como Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon.
Ao abordar a representatividade negra, destacou o quanto a presença de autores como Conceição Evaristo e Ailton Krenak ajudou a abrir caminho para novas vozes. “Cá estou eu, 128 anos depois da fundação da Academia, como a primeira escritora negra eleita, falando português e escrevendo a partir da oralidade e da escrevivência”, afirmou.
A cerimônia teve a apresentação de Lilia Schwarcz, que destacou o impacto de Um defeito de cor e a importância da nova imortal. Também participaram Ana Maria Machado, que entregou o colar acadêmico, e Gilberto Gil, responsável pelo diploma.
Outros acadêmicos, como Miriam Leitão, lembraram o simbolismo da posse. “A entrada de Ana Maria traz a força da mulher e da literatura negra para dentro da Academia”, disse.
A atriz Regina Casé e o ator Lázaro Ramos também celebraram a conquista. Para ele, o ingresso da escritora na ABL representa justiça e amadurecimento cultural.
A escritora Conceição Evaristo definiu o momento como uma vitória coletiva. “A conquista de Ana é a conquista de todas nós, mulheres negras e escritoras. Quando a história silencia, a literatura fala”, declarou.
Após a cerimônia, os convidados participaram de um jantar para 300 pessoas. O cardápio foi inspirado no livro Um defeito de cor e preparado pela chef Dilma do Nascimento, que encerrou a noite com cocadas, em homenagem à trajetória das personagens do romance.

