O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) trocaram propostas, críticas e acusações pessoais no debate da TV Globo realizado na noite desta sexta-feira (23), o último encontro entre os dois antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). O programa começou com discussões sobre temas nacionais e regionais, mas terminou com ataques envolvendo corrupção, relações com empresários e a atuação dos dois candidatos.
Em comparação com o debate anterior, realizado pela TV Bandeirantes, os candidatos adotaram inicialmente um tom mais moderado. Ao longo do programa, porém, os confrontos ficaram mais intensos. A discussão também foi marcada por um desentendimento sobre o tempo de fala de Lula, depois que o presidente encerrou uma intervenção antes de utilizar todo o período disponível e Flávio questionou seu direito de voltar a falar na tréplica.
Na economia, Flávio concentrou as críticas no custo de vida, no endividamento das famílias e nos preços dos alimentos. O senador prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação e propôs renegociar dívidas por meio da Caixa Econômica Federal, com suspensão temporária dos pagamentos. Lula defendeu as políticas de valorização do salário mínimo adotadas em seus governos e citou programas de renegociação de débitos, como o Desenrola.
Os candidatos também discutiram saúde pública e segurança. Lula criticou a condução da pandemia pelo governo de Jair Bolsonaro e cobrou propostas para melhorar o Sistema Único de Saúde (SUS). Flávio prometeu ampliar os investimentos na rede pública e atualizar os valores pagos a médicos e hospitais.
Na segurança, o senador defendeu penas mais duras para determinados crimes, a redução da maioridade penal em casos específicos e a classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas. Lula falou em fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e propôs a criação de um Ministério da Segurança Pública caso avance a proposta de reorganização da área.
Um dos momentos mais delicados ocorreu quando Lula trouxe ao debate o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021. A mãe da criança acompanhava o programa. Flávio, que integrou a defesa do policial militar acusado pelo crime, prestou solidariedade à mulher e afirmou confiar que o agente não fosse o responsável. O caso ainda não havia sido julgado.
Outro confronto envolveu uma declaração anterior de Flávio, que afirmou que Lula dava benefícios com uma mão e tirava com os “nove dedos”. O presidente perdeu um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho quando tinha 17 anos. Durante o debate, o senador pediu desculpas pela expressão, mas também cobrou retratações de Lula por críticas dirigidas a ele.
No bloco de tema livre, as acusações sobre corrupção ganharam espaço. Lula questionou Flávio sobre recursos que o senador teria solicitado ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio respondeu que os recursos foram destinados à produção e negou irregularidades. O senador, por sua vez, fez acusações contra o entorno do presidente e cobrou explicações sobre relações financeiras e patrimônio de familiares de Lula. As afirmações apresentadas pelos dois no confronto não representam, por si só, comprovação de irregularidades.
A discussão sobre apostas on-line também provocou troca de acusações. Flávio responsabilizou o governo Lula pela expansão dos jogos, enquanto o presidente afirmou que o problema começou com a legislação aprovada durante o governo Bolsonaro e defendeu medidas contra os efeitos das apostas sobre as famílias.
No debate sobre as regiões brasileiras, Lula questionou o conhecimento de Flávio sobre o país e afirmou ter a impressão de que o senador não gosta do Nordeste. Flávio rebateu, citou sua trajetória política e prometeu dar atenção à região. Os dois também discutiram políticas para o agronegócio e ações de seus governos.
O confronto terminou com novas críticas pessoais nas considerações finais. Foi a última oportunidade de os candidatos apresentarem suas propostas e tentarem convencer eleitores antes da votação de domingo. O debate foi mediado pelo jornalista César Tralli.

